Cinzas e sombras

Em uma terra sem condições de plantio, pois as terras sãos só pó e cinzas, a mãe olha pra sua cria sem esperanças de que sobreviva. Ela reza a prece dos condenados, para que essa criança não sofra com o corte afiado da foice da morte. Ela desperdiça a água do seu corpo derramando lágrimas sobre esse corpo frágil e esquelético.

As sombras chegam sobre o casebre de lama e galhos. Invade o lugar açoitando friamente os corpos sem resistência, faz florescer um certo pavor na mente dos miseráveis e lhes rouba o último pedaço de pão daquele mês. Olha com desdém praquele ser, parecendo deformado, embrulhado em panos encardidos, fedendo a leite azedo, que nem forças para um último suspiro tem e fica enojada só em pensar tocá-lo.

Agarra sua amiga inseparável, a foice, e em um único golpe lhe dilacera a alma. Levando assim o fruto daquele estupro a ser esquecido no coração partido da mãe.

Com todo o meu amor.

Antiquada. Riquinha. Gorda. Aparecida. Fútil. Estes e outros nomes piores não foram ditos, mas era exatamente o que o sorriso de cada amiga de Ágata queria dizer sobre ela em seu baile de debutante enquanto a viam perambular pelo salão toda sorridente.

 Porém, esplendorosa seria a definição, em uma única palavra, de como Ágata estava naquela noite. Muito além do que se poderia esperar de uma garota como ela, que era simples e as vezes desleixada no seu modo de se vestir. Agora, os cabelos negros estavam presos por um arranjo de pequenas flores brancas, que depois caíam em cachos tão perfeitos que pareciam naturais. A maquiagem era suave, e encontrava o equilíbrio perfeito com seu tom de pele. O vestido era branco, com rendas e bordados que remetia a pessoa à pensar na coisa mais pura que se poderia existir. E para finalizar, ostentava um anel prateado com pedrinhas brilhantes. Na verdade estava um pouco apertado, mas aquilo foi presente do pai, e pelo menos por aquela noite ela não queria perder a sensação de perfeição.

O pai estava orgulhoso da filha, vendo-a ir de mesa em mesa cumprimentar e agradecer a presença dos convidados, mesmo sabendo que ela não gostava de uma ou outra pessoa que havia sido convidada. Aquela era uma filha de ouro que merecia até mais do que ele poderia oferecer. E foi muita sorte, um verdadeiro achado, ele encontrar um anel tão bonito por um preço tão baixo na loja de penhores. Ele sabia da diferença de preço porque depois que o comprou, precisou levar o anel para limpar. Aquilo estava realmente uma imundice. E quando foi buscar o anel, o dono da joalheria o chamou para um particular no fundo da loja e lhe ofereceu cinco vezes mais o que ele havia pago na loja de penhores. A resposta não foi dada rapidamente. O pai de Ágata naquele momento sentiu vontade de aceitar a oferta. A filha não era muito ligada à coisas de valor como aquela e esse dinheiro poderia aliviar as despesas que teria com a festa, pensou ele.

Mas antes mesmo de ser dita qualquer resposta, o dono da joalheria, vendo que o homem oscilava em seu interior entre vender e não vender a peça, aumentou a oferta para sete vezes mais do que havia sido pago. E foi nesse momento que o pai de Ágata decidiu não vender o anel. Se aquele aro de prata valia tanto assim, melhor que ficasse de presente para a filha. Seria, além de um presente bonito, um investimento que ela poderia trocar quando precisasse.

Naquela tarde, quando o pai lhe deu o presente, ela o beijou e o abraçou inúmeras vezes como forma de agradecimento. É perfeito, ela dizia. Fazendo com que o anel, naquele momento, entrasse e saísse de seu dedo com muita facilidade.

 Ágata, que já era uma garota carinhosa com os pais, ficou muito feliz com o que havia sido gravado no anel, com todo meu amor, mal sabendo ela que aquele escrito não era para si. Que aquele anel havia feito parte da vida de outras pessoas e de uma outra história de amor, da qual o fim não se sabia. Ela sentia como se aquelas singelas palavras fossem a melhor declaração de amor possível. Só não ficou agradecendo aos pais pelo resto do dia porque precisava começar a se arrumar para a festa daquela noite.

Depois da valsa, tomou uma taça de champanhe com o pai, no meio dos flashes das fotos que eram tiradas. Então, sentindo-se um pouco cansada e com um calor febril, ela se sentou solitária em uma das mesas. A taça em sua mão ainda continha champanhe gelada e ela tomou novo gole, porém, quando ela desceu a taça viu algo flutuando no meio da bebida. Era uma gota de sangue. Ela sabia disso porque uma nova gota caia diretamente de seu nariz para dentro da taça.

No mesmo instante tudo a sua volta girou, intermitentemente entrando e saindo de foco, ela sentiu que o anel ficou mais apertado em seu dedo, a música da banda se transformou em um contínuo som irritante que lhe feria os ouvidos, e deixando seu lado frágil a mostra ela começou a chorar.

Eram lágrimas de sangue que rolavam pelo seu rosto, agora pálido, e caíam sobre o vestido. O desespero tomou conta dela. O sangue pintava seu vestido de uma nova cor enquanto todos os outros estavam aproveitando a festa sem dar por sua falta ou notar o que lhe estava acontecendo. Ela já ía se levantar para pedir socorro quando sentiu uma forte contração abdominal. No mesmo instante, um líquido quente volumoso saiu de seu sexo, espalhando-se e escorrendo pelo meio de suas pernas. Seu ventre pulava espasmodicamente.

Já não mais ouvindo, Ágata juntou forças e conseguiu se levantar, puxou o que pode de ar e soltou o grito mais forte que pôde. Um grito agudo e sofrido.

Toda a gente parou e se voltou para ela, ainda ouvindo seu grito até que com um gorgolejo ela vomitou sangue sobre a mesa, desfalecendo logo depois.

Houve tumulto. Uns corriam acudir a debutante, outros corriam para a porta de saída mais próxima, pisotiando a quem estivesse na frente, e outros ainda corriam até algum canto para vomitar. A balbúrdia reinava. Alguém só falou em chamar uma ambulância algum tempo depois. E esta quando chegou só veio para confirmar o que já se sabia, que Ágata estava morta.

A garota, com o sorriso que queria dizer aparecida quando olhava para Ágata, estava em choque. Olhando para o nada ou o além, ela viu algo brilhando no chão aos seus pés. Aquilo parecia chamar o seu nome. Então ela pegou o objeto e soube que era o anel que Ágata estava usando. Não havia respingos de sangue, nem amassados e nem riscos. Só o que chamava sua atenção era o com todo meu amor gravado na parte interna. Então a garota colocou o anel no dedo e saiu pela porta de emergência mais próxima.

 

Acontecido na viela.

Três tiros no escuro foram ouvidos. A princípio tomou-se aquilo por apenas estampidos, sons ocos vindo de uma viela sem importância, que mais servia de esgoto para a escória da sociedade que vinha sei lá de onde. Só depois do grito é que se foi dar algum tipo de atenção. O pedido agoniado de socorro que vinha misturado com choro e baba, ou não era baba? Das raras pessoas que passavam pela calçada pouco iluminada somente se viam os olhos curiosos tentando atravessar a massa quase sólida de escuridão, nenhuma ajuda. Os sons iam ficando minguados, tornando-se soluços espasmódicos, até que a cantoria dos gatos vadios abafou os sons vindos da viela. Logo, uma sombra caminhou até próximo o início da viela, em um lugar onde a penumbra ainda não deixava ver o sangue que lhe cobria as mãos. Recostou-se na parede e escorregou até estar no chão, então abraçou os joelhos e enfiou a rosto entre as pernas, deixando-se assim ficar. A pálida lua havia caminhado um bom pedaço do céu quando finalmente luzes vermelhas piscantes deram um pouco de luz àquele lugar. Duas figuras desceram do carro e olharam para a figura esquálida e suja encolhida na boca da viela chamando-lhe a atenção. Os olhos marejados e fundos ergueram-se fitando os homens de uniforme causando-lhes ainda mais transtorno. Os homens fizeram algumas perguntas no qual a criatura respondia apenas meneando a cabeça. Esqueceram por instantes a existência dele ali e olharam ao redor, nada viram, então deram alguns passos dentro da escuridão. Seus corações palpitavam acelerados e descoordenados como se gritassem, e um podia ouvir o coração do outro bater alto. Olharam-se, e seus olhos diziam um ao outro que ali dentro não haveria nada que eles pudessem fazer. Viraram os pés e saíram apressados nem notando a falta daquela pessoa na boca da viela. Horas depois, quando a madrugada dava vez para um sol tímido ir aparecendo, uma senhora distraída se assusta com algo e sai em disparada deixando cair os pães que acabara de comprar. Minutos depois, patrulhas pararam em frente à boca da viela onde um pequeno círculo de curiosos já havia se formado, todos tinham no rosto a expressão de assombro e negação. Estavam a olhar um cão vira-lata, tão magro que era apenas couro e osso, que estava a saciar sua fome mordendo, rasgando e comendo um braço humano.